quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Entrevista MJ - Disfarçar para não ostentar


O estilista da Louis Vuitton diz 
que a indústria do luxo continua viva 
e as clientes sempre vão comprar roupas e maquiagem,
mas estão mais discretas.
Bel Moherdaui


Você pode não reconhecer o sujeito de saia na foto acima, mas com certeza já viu alguma de suas criações: todas as célebres bolsas Louis Vuitton nos últimos doze anos passaram de alguma forma pelo crivo de Marc Jacobs. Caso incomum de americano que faz carreira longa numa grande grife de origem francesa, Jacobs corresponde ao estereótipo do estilista genial: é temperamental, caprichoso e complicado. Mas vende que é uma beleza. Sua própria marca, em escala evidentemente menor, também faz sucesso junto a uma clientela antenada e abonada. Às voltas com os resultados deletérios da crise econômica no consumo de luxo, Jacobs tem outra, e mais premente, preocupação no momento: que impressão vai causar na mãe do companheiro, Lorenzo Martone, publicitário paulistano radicado em Nova York. O encontro com a sogra será no dia 19, quando desembarca em São Paulo, onde acaba de inaugurar uma loja, para uma visita de férias e negócios no país. "Nas clientes, o que causa impressão é meu trabalho. Na mãe dele, será a minha pessoa. É bem mais arriscado", diz, em tom apreensivo. Aos 45 anos, história de vida complicada, duas passagens por clínicas de recuperação, 31 tatuagens e planos de adotar um filho, Jacobs falou a VEJA de Paris.
Como a crise econômica está afetando a alta moda?
Na minha grife, até chegamos a discutir se deveríamos prestar mais atenção ao preço dos tecidos, usar menos material em determinada saia, diminuir a quantidade de mão-de-obra especializada, enfim, cortar gastos. No fim, decidimos fazer o que sempre fizemos, só que com mais responsabilidade. Em Nova York, cortamos o número de convidados do desfile. Não gastamos 1 milhão de dólares no cenário, não fizemos festa depois. Cortamos todos os extras e realizamos um desfile focado, sem celebridades. Mas não cortamos nos produtos, nas roupas em si. Mantivemos tudo como sempre foi: tecidos lindos e exclusivos, peças feitas com cuidado, ideias fortes.

O que é pior: a crise ou a percepção que se tem dela?
É claro que existe uma crise econômica em curso, ninguém inventou isso. Nas conversas com meus amigos do mercado de arte e de outras áreas, fora do mundo da moda, eles dizem que as pessoas continuam comprando, mas são mais discretas. Essa é a questão. Há maior discrição, para não passar a ideia de falta de sensibilidade diante das más notícias. Mas acho que as pessoas vão continuar comprando roupas, maquiagem, perfume. Vão continuar vivendo a vida.

Mas será que elas vão ficar horas na fila para comprar uma bolsa de 10 000 dólares?
Não. Nem sei se muita gente de fato fazia isso, pelo menos nessa esfera de preços. Mas a pequena coleção baseada no meu trabalho anterior com o artista plástico Stephen Sprouse para a Louis Vuitton foi lançada em 8 de janeiro com fila de dar a volta no quarteirão. O preço das peças ia de 100 a 1 690 euros e na hora do almoço já não tinha sobrado nada nas lojas. Em uma semana, as vendas atingiram 10 milhões de euros. Isso me diz que a economia está difícil e as pessoas ficaram mais cautelosas. Mas, se oferecermos a elas alguma coisa instigante, interessante, elas vão comprar. Só terão de priorizar.

Como investidor, o senhor perdeu muito com a crise?
Não se iluda, não tenho tanto dinheiro assim. Nossa empresa está indo muito bem e continua crescendo, mas não sou nenhum Valentino.

Nova York ou Paris?
Passo metade do ano em cada cidade. Quando estou em Paris, o que eu mais sinto falta é de Lorenzo, da nossa vida juntos, e da cidade em si. Fui criado em Nova York, é o lugar em que eu me sinto mais à vontade no mundo. Mas tenho um apartamento ótimo em Paris, onde ficam minha coleção de arte e meus dois cachorros. Como é uma cidade quase provinciana, levo uma vida mais calma, não saio muito. 

Como é o processo de criar, a cada semestre, três coleções diferentes, para marcas diferentes, em dois países e com públicos diversos?
Não sou bom para fazer duas coisas ao mesmo tempo. Definitivamente, não sou multitarefa. Quando estou fazendo uma coisa, eu me dedico só a ela. Claro que às vezes acontece de eu estar pensando numa coleção e ter de dar atenção a alguma coisa de outra. Mas a concentração total vem três semanas antes de cada desfile. Aí, eu só penso nele.

E o que o senhor faz no resto do ano?
Não é que eu trabalhe só nessas três semanas antes dos desfiles. Em geral, assim que termina um desfile já começamos a pensar no próximo – no tecido, nas cores. Além disso, tenho de dar entrevistas, participar de reuniões, sentir a reação das lojas e dos compradores. Tem trabalho para o ano todo.

Como ficar antenado numa área tão volúvel?
As informações vêm de todo lado. Um pouco vem da minha memória – afinal, já tenho 45 anos e alguma experiência de vida. Mas me mantenho atualizado escutando música, prestando atenção às ruas, indo a restaurantes, ao cinema e a galerias, lendo. Muitos dos meus amigos exercem profissões que trabalham a criatividade, e eles me dizem o que estão fazendo, o que viram, o que os deixou entusiasmados. De uma forma ou de outra, nós nos expomos mutuamente a diversas influências.

Nesta semana o senhor desfila a coleção para a Louis Vuitton em Paris. Como é o ritmo de trabalho nesta etapa final?
Só fica pronto quando chega à passarela. Sempre trabalho até o último minuto. Para mim, a criação é mais um processo evolutivo e menos tomar decisões com seis meses de antecedência e simplesmente executá-las. É uma coisa que se desenvolve, ganha forma e só termina quando montamos a roupa e os acessórios nas modelos. Aliás, é a parte de que eu mais gosto. É como criar uma peça de teatro em que as modelos são personagens.

O mundo da moda parece dividido em realidades paralelas: os desfiles, as revistas de moda, as grandes festas com mulheres famosas, o que se vende nas lojas e, por fim, o que as pessoas usam de verdade nas ruas. Como essas realidades se conectam?
Tudo tem uma ligação orgânica. O desfile é a expressão de um espírito, uma emoção, uma silhueta, texturas, cores, as sensações do estilista. As criações que saem da passarela, em conjunto com as peças escolhidas para divulgação e publicidade, acabam aparecendo nas celebridades que vão a festas de tapete vermelho. Assim, três meses antes da chegada da coleção às lojas, as potenciais compradoras são expostas a tudo isso e vão colecionando ideias. Mesmo as que não podem comprar aquelas roupas ficam informadas. Hoje, a informação de moda é acessível a qualquer um. É esse processo que sustenta as redes de roupa mais barata, como Zara e afins, que funcionam em escala gigantesca. Essa moda mais barata é muito pautada pela alta moda. E o efeito chega à periferia, a locais sem a sofisticação urbana.

As marcas que levam sua assinatura – Marc Jacobs, Marc by Marc Jacobs e Louis Vuitton – pertencem ao conglomerado de luxo LVMH. Onde começa e acaba a sua liberdade?
Não tenho restrições em termos de criação. Nas duas que levam meu nome, eu decido tudo. Mas, na Louis Vuitton, não tenho a palavra final em matéria de produção, venda e publicidade. Nela, meu processo criativo tem liberdade total até a passarela. Daí em diante há uma rede de pessoas que editam a coleção, ou seja, escolhem os modelos que chegarão às lojas. Como americano, sou muito prático. Embora expresse fantasias nas minhas coleções, são fantasias baseadas no desejo de criar coisas que as pessoas vão usar em restaurantes, na rua, nas festas, para ir ao trabalho, no fim de semana; bolsas que as pessoas vão carregar, sapatos que elas vão amar. Não pretendo inventar nada apenas pelo espetáculo. Não é essa a minha ambição.

O que aprendeu ao trabalhar num gigante como o grupo da Louis Vuitton?
Como funciona o varejo, a importância da localização das lojas, as diferentes maneiras de promover e vender uma coleção.

O senhor acha que só mulher magra é elegante?
Não. Acho que inteligência, educação e senso de humor fazem a mulher ser elegante. Basicamente, as mulheres que eu conheço são assim.

E são todas magras?
Bem, são. Quase não conheço mulheres acima do peso.

O senhor mesmo foi gordinho, teve problemas com drogas e bebida. Como conseguiu largar o vício e se transformar num homem atlético e bronzeado?
Passei por dois períodos em clínicas de recuperação e nelas aprendi que tenho a capacidade de fazer escolhas na vida. Não me arrependo nem um segundo do meu tempo de bebida e drogas, mas me arrependo da minha atitude, de ter assustado as pessoas, de ter sido irresponsável no trabalho e egoísta. Hoje, sou uma pessoa muito melhor. Adorei a estada na clínica, foi muito educativa. Adorei ter feito terapia, olhado para dentro e visto do que eu estava fugindo quando recorria à bebida e às drogas. Continuo a ver um psiquiatra uma vez por semana. Além disso, faço duas horas e meia de academia todo dia e contratei uma nutricionista. Eu me alimento muito bem e tomo vários suplementos. Aboli açúcar, farinhas e derivados de leite. Quanto ao bronzeado, adoro o sol e acredito em suas qualidades restauradoras, mas vivo em um país gelado boa parte do tempo, então recorro a um salão de bronzeamento.

Cirurgia plástica?
Nunca, mas tenho um médico em Nova York que me faz umas aplicações de ácido hialurônico nas maçãs do rosto e no nariz. E um pouco de Botox para tirar as rugas no canto dos olhos.

Ter boa aparência é obrigatório no seu ramo de atividade?
Nesta era das celebridades, quando as pessoas gostam de uma grife, elas querem ver como o estilista se veste, como é a casa dele. Eu, no entanto, passei anos sem ligar para a aparência, e os negócios sempre foram muito bem. Minha mudança pode ter atraído atenções nas revistas de celebridades, mas não alterou o número de vestidos que vendemos.

O que o senhor gosta de vestir?
Nos últimos meses tenho usado muita saia. Gosto de saia, com camiseta, às vezes uma malha, bota ou sandália. Acho confortável.

O senhor sabe costurar?
Aprendi na escola, na 6ª série. Gosto de moda desde pequeno. Naquele tempo não existia roupa de criança com cara de roupa de gente grande, como agora. Então aprendi a fazer coisas para mim.

Em que sua vida foi diferente pelo fato de ter sido criado por sua avó?
Aprendi a fazer tricô. Meu primeiro projeto sério, ainda na faculdade, foram três suéteres, que chegaram a ser produzidos em escala comercial. Os originais foram tricotados por mim e por minha avó. Ela tinha senso de estilo e bom gosto. Também me ensinou a cuidar das roupas e a valorizá-las. Por isso, eu me tornei meticuloso e muito arrumadinho: pendurava as roupas, dobrava as malhas, até aprendi a passar a ferro. Lembro que, aos 11, 12 anos, decidi que ia ser estilista. A partir daí, quando íamos ao supermercado ou ao açougue, ela dizia: "Este é meu neto. Um dia vai ser um estilista famoso". Ela tinha orgulho do que escolhi fazer e me apoiou muito. Infelizmente, morreu antes de eu me tornar conhecido.

Por que foi criado separado de seus irmãos?
É uma história longa e triste. Minha mãe era doente e não tinha condições de cuidar de nós. Meu pai morreu quando eu estava com 7 anos. Eu tinha uma ótima relação com a minha avó e ela comigo, mas não com meus irmãos. Fiquei com ela; eles não quiseram fazer o mesmo e foram encaminhados para adoção. Não tenho contato com ninguém da minha família há mais de vinte anos.

 
Não poderia começar o ano seu meu queridinho Marc, achei essa reportagem pela web, é de Março de 2009  Revista Veja Edição 2103 - dia 11 de Março.
Enjoy

Bjos

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